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As grandes cervejarias são mesmo o diabo?
A grande maioria dos apreciadores das cervejas especiais tende a execrar qualquer coisa que venha chancelada por uma grande cervejaria. Ambev, Femsa, Grupo Schincariol, são nomes que, comumente, são associados à cervejas de baixíssima qualidade. Também são questionadas as estratégias agressivas de mercado dessas empresas, que dificultam o crescimento da concorrência. Eu mesmo, aqui no Bebendo Bem, já falei mal dessas empresas.
No entanto, olhando para os vários exemplares de Eisenbahn, Leffe, Heineken e Kaiser Gold presentes na minha geladeira, pensei que essa postura é meio hipócrita, não é mesmo? Será que as grandes empresas cervejeiras são mesmo o diabo?
OK, não vamos também dizer que a Skol e a Nova Schin são grandes cervejas. Uma coisa que as grandes cervejarias tem em comum é a sua linha popular, de altíssima vendagem, cheia de adjuntos e cujo controle da produção é mais responsabilidade do departamento de marketing que do mestre-cervejeiro. Mas alguém já parou pra pensar porque a qualidade dessas cervejas é tão baixa?
Um fator importante, certamente, é o custo baixo de produção, já que essas cervejas levam muito menos malte e lúpulo que uma cerveja especial. No entanto, quem já tentou beerevangelizar algum bebedor comum de cerveja, sabe que qualquer coisa diferente do normal assusta. Uns acham muito amarga, outros acham muito “forte”, e se a breja não estiver trincando de gelada, já viu. A cerveja gelada e sem gosto virou um padrão completamente arraigado no paladar do brasileiro médio. Ah, mas alguns podem dizer que isso aconteceu por culpa das cervejarias, que mal-educaram o gosto da população. Em parte, sim. Mas isso é dizer que o consumidor é burro, por ter aceitado passivamente a queda da qualidade das cervejas.
Só que a tendência está mudando. Nos últimos anos, o setor de cervejas especiais tem crescido exponencialmente. O consumidor, aproveitando o maior poder de compra e o aumento da oferta, está buscando conhecer novos rótulos, novos estilos. E é aí que eu digo que as grandes cervejarias tem feito um ótimo trabalho.
Anos atrás, quando o Grupo Schincariol comprou a Eisenbahn, a Baden Baden e a Devassa, muitos ficaram receosos de que a qualidade dessas cervejarias iria cair. Não foi o que aconteceu. Com o incremento em publicidade e na logística, hoje em dia é muito mais fácil encontrar essas cervejas nos bares e restaurantes. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, já é possível beber uma Eisenbahn Pale Ale até mesmo numa loja de conveniência, no meio da madrugada. O que antes era um produto altamente segmentado e difícil de achar, agora é fácil de ser encontrado, com um preço justo e com a mesma qualidade de antes. Se isso não é beerevangelização em larga escala, não sei o que é.
Outro bom exemplo de atuação das grandes cervejarias é a importação de novos rótulos. As prateleiras dos supermercados brasileiros foram invadidas por cervejas como as belgas Hoegaarden e Leffe, a alemã Franzsiskaner e as irlandesas Murphy’s, todas ótimas cervejas e com preços acessíveis. Isso só foi possível por causa da multinacionalidade das grandes cervejarias, que por produzirem esses rótulos no exterior, conseguem importar para o Brasil com preços competitivos. Quem costuma comprar cervejas importadas sabe a diferença de preços entre uma cerveja importada da Ambev, por exemplo, e uma cerveja que vem para o Brasil via importação normal. Sem entrar nos meandros tributários e alfandegários, o que importa é que o consumidor só tem a ganhar quando boas cervejas chegam ao mercado por preços convidativos.
Esse texto não tem a intenção de ser definitivo, nem de defender as Skols e Brahmas que embrulham nosso estômago. Só achei que devia fazer um pouco de justiça, já que nem tudo que vem dos grandes grupos cervejeiros é ruim. O que não presta, deve ser criticado, não é mesmo? Então, por que não elogiar o que deve ser elogiado?
Stella Artois misturada com Leffe?
Ao passo que a Stella Artois é considerada uma cerveja comunzinha por alguns beer snobs, a Leffe é quase uma unanimidade. O que as duas tem em comum? Além de serem duas cervejas tradicionais da Bélgica, as duas são fabricadas pela mesma empresa, a gigante cervejeira AB-InBev.
Eis que, na correria da fabricação, 4232 barris de Stella Artois, equivalentes a 850.000 garrafas, chegaram ao mercado belga com um terrível gosto azedo e um cheiro desagradável. O motivo? Essa leva de Stella foi contaminada pela má sanitização do equipamento que tinha sido usado anteriormente para a fabricação de um lote de Leffe.
O erro custou milhares de dólares à empresa, que teve que cancelar a exportação de 9000 hectolitros de Stella para os EUA, sendo que desses, 800 já estavam em alto mar e tiveram que dar meia-volta.
Quer dizer, a Leffe estragou a Stella? Imagina a quantidade de piadas se tivesse acontecido o contrário…
(Fonte: hln.be)Leffe Brune

Certamente, falaremos da cerveja com melhor custo benefício que você pode encontrar por aí. Importada pela AB-InBev, a Leffe Brune é uma belgian dubbel de lamber os beiços, com um preço equivalente às “Bohemias” da vida, mas com um sabor que nem se compara. Pra tentar explicar para quem está acostumado com as “cervejas de milho” que entopem as prateleiras dos supermercados, a Leffe pode ser descrita como a equação (bolacha recheada) – (recheio) + (lúpulo). Ou seja, pros iniciados, é uma cerveja que mostra, no aroma e no sabor, um malte intenso, adocicado, que lembra muito um biscoito alcoólico, por conta da torrefação do malte e das notas de caramelo, cereais, chocolate e café. Tudo isso balanceado com a medida certa de lúpulo, que dá o amargor característico da cerveja, mas sem se sobrepôr ao delicioso sabor do malte. Se trata de uma cerveja linda, com um creme bege pequeno e espumoso, mas duradouro e com uma transição muito boa. Seu líquido é marrom-escuro, quase preto, e com poucas borbulhas. A cerveja é licorosa, bem encorpada, coerente com o sabor. Pra terminar, fica na boca aquele gostinho agridoce sensacional de uma cerveja bem balanceada.
Cerveja perfeita para dias outonais, ainda mais levando em consideração o preço acessível que ela é encontrada nos supermercados da vida. Aqui em casa não falta. Nota 8,5/10.



