Guerra declarada: Budweiser ataca cervejas artesanais em comercial

Como de costume, a Budweiser foi uma das anunciantes do espaço mais caro da TV, o intervalo do Superbowl. Porém, diferente dos outros anos, onde festas, cachorros fofinhos e imponentes cavalos protagonizavam as peças que sempre deram o que falar, dessa vez a Bud resolveu falar do produto. Só que, além de exaltar seu tamanho, sua cor, sua facilidade de beber e seu público, a marca atacou forte o setor das craft beers e seus entusiastas. Veja o comercial:

Não é o primeiro ataque da Bud aos amantes das craft beers. Nesse outro comercial para a web, um consumidor é constrangido por um dos Clydesdale ao escolher um six-pack de artesanais a um de Bud:

As ações, é claro, dividiram as opiniões cervejeiras. Ao passo que muitos acharam a propaganda genial ao escancarar a decisão da Bud em se posicionar como uma anti-craft, outros ficaram furiosos com o estereótipo dos beer snobs retratados no comercial e com a tiração de onda em relação ao experimentalismo das cervejas artesanais, representada pela ficcional “pumpkin peach ale” (que, por sinal, nem é tão ficcional assim, já que a Elysian, última aquisição da gigante cervejeira, já produziu uma cerveja dessas). Brian Perkins, VP de Marketing da Budweiser, afirma que não houve nenhum tipo de ataque,: “Isso não é um ataque às craft beers, isso não é um ataque aos competidores. É uma firme e orgulhosa declaração do que é a Budweiser, uma cerveja despretensiosa para aqueles que conhecem cerveja”. No entanto, ele concorda que os beer snobs foram alvo da brincadeira: “Existe uma pequena parte do mundo cervejeiro que vira a cara para os pretensiosos analistas de cerveja. Esse é um lado da cerveja que ninguém gosta e é a antítese de tudo o que a Budweiser representa”.

“Se vocês não gostam de mim, eu também não gosto de vocês”

Convenhamos, apesar da declaração do executivo da Budweiser, o comercial é uma clara – e beligerante – resposta ao emergente mercado craft que vem causando a sua preocupante queda de vendas. Apesar de mostrar, finalmente, as qualidades do seu produto – que, gostos pessoais à parte, até existem – ela assume o papel de antagonista do movimento artesanal. Durante anos a Bud foi o alvo de ataques dos fãs das artesanais e agora, como um garoto revoltado por anos de bullying, resolveu contra-atacar, apontando o dedo para um dos pontos fracos do movimento, os beer snobs.

Só que ela acaba assumindo uma posição equivocada, assim como a dos seus antagonistas. Alguns craft fans mais xiitas sempre se referiram à Bud e suas similares como “cervejas sem qualidade” e execrando seus consumidores, tratando-os como ignorantes e donos de um extremo mau gosto. Assim como essa intolerância generalista é burra ao querer classificar o gosto alheio, a resposta da Bud ao tratar todos aqueles que gostam de cervejas diferentes como hipsters beer snobs que dissecam uma cerveja em vez de apreciá-la é tão burra quanto.

Esquecem que uma pessoa pode gostar tanto de uma Imperial IPA absurdamente lupulada, como de uma Bud geladinha, como eu, por exemplo. Esquecem que toda cerveja tem seu valor e seu momento, tanto a Bud, quanto a Pumpkin Peach Ale da sua Elysian. Esquecem que cada um tem o seu ritual e que beber cerveja – seja aos litros para encher a cara, ou seja sozinho numa sessão de degustação analítica e privada – é apenas uma forma de obter prazer. E, principalmente, deixam de lado a cerveja e partem para o ataque gratuito, estereotipando consumidores e fomentando uma batalha estúpida e sem sentido. Em vez de ignorar as ofensas bestas de uma parte dos consumidores mais exaltados, a Bud entra de voadora na briga. E brigas nunca acabam bem.

Mas enfim, isso tudo é apenas marketing e posicionamento de marca. Seja das craft, cujo posicionamento histórico foi calcado na antítese às fizzy yellow beers, quanto da Bud, que se afirma uma fizzy yellow beer com orgulho. Nâo é religião, não é time de futebol, não é família. São apenas empresas brigando pelo seu market share e pela maximização do seu lucro. E o verdadeiro alvo disso tudo é você, consumidor. Diante disso, você pode escolhe de qual lado ficar. Mas tenha plena consciência que essa guerra tem três lados. Você pode escolher qualquer um dos dois, seja a Bud, seja as craft, e se juntar ao séquito de vítimas do marketing. Ou pode, simplesmente, continuar bebendo a cerveja que estiver a fim, seja ela qual for, seguindo o seu paladar e fazendo como o cara da foto abaixo. 😀

coolbeerguy

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