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Direito de Resposta

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“Tenha opinião e tenha inimigos”. Isso foi o que uma amiga minha, homebrewer, me falou dias atrás. Não que eu já não soubesse disso, pois há quatro anos escrevendo no Bebendo Bem, já angariei alguns desafetos. No entanto, sempre fui um defensor da liberdade de expressão, e como qual, sabedor das consequências de publicizar o que se pensa. Em nenhum momento da história desse blog, deixei de publicar algum comentário que me fosse prejudicial e os registros estão aí para serem vistos, tanto aqui, quanto nas redes sociais do Bebendo Bem. Na grande maioria das vezes, procuro responder com sensatez, mesmo que o comentário seja ofensivo e direcionado à minha pessoa, em vez de ser uma resposta ao que foi escrito. E é com esse espírito que venho aqui responder aos ataques que estão sendo feitos a mim desde a publicação da minha coluna de abril na Last Call For Beer, onde falo justamente da liberdade de expressão.

Antes de mais nada, quero isentar a Last Call For Beer e o Have a Nice Beer de qualquer responsabilidade em relação ao que eu escrevi. De forma nenhuma a minha opinião representa o pensamento do clube e da revista, que sempre me deixaram livre para escrever o que eu quisesse. Qualquer efeito das minhas palavras são minha responsabilidade, mesmo que os veículos sejam deles, como no caso em questão.

Desde o último sábado, uma frase pinçada do texto, usada completamente fora de contexto, começou a circular nas listas de discussão de homebrewers. A iniciativa foi do presidente reeleito da Acerva Gaúcha, Guenther Sehn, um declarado desafeto que já inclusive ameaçou publicamente a minha integridade física e que estava há anos procurando um pretexto para me atacar. Não contente com a discussão que ele gerou em meios restritos, ele elaborou uma “Carta de Repúdio” no seu perfil do Facebook, onde me chama de “parasita da cerveja” e que eu vivo, nas suas palavras, “de sorrisinhos amarelos, tapinhas nas costas, e só fala bem quando tem JABÁ envolvido, ou seja, ganhando algo em troca”, o que mostra bem o tom pessoal e raivoso do que deveria ser uma simples contestação do que eu escrevi, demonstrando que o que lhe ofende não são apenas as minhas palavras, mas a minha presença no mundo. A postagem foi curtida e compartilhada por várias pessoas, o que aumentou consideravelmente a lista de ofensas pessoais a mim, inclusive com palavras de baixo calão direcionadas à minha pessoa. Alguns outros, aproveitando-se da situação, externaram mágoas antigas e subiram no bonde da ofensa, pedindo a minha cabeça numa guilhotina.

Quem me conhece e acompanha o Bebendo Bem sabe que tipo de pessoa eu sou. Polêmico? Sim, certamente. Mas por mais crítico que eu tenha sido em várias vezes, nunca ofendi ninguém. Posso apontar defeitos, diferenças, incoerências e erros de pessoas e empresas, mas sempre com respeito e mantendo o nível da discussão. Foi assim que fiz com que esse blog – e eu, pessoalmente – fosse conhecido e, de certa forma, respeitado no meio cervejeiro. Em nenhum momento cobrei qualquer tipo de benesse para divulgar ou falar bem de algo ou alguma coisa, de acordo com os preceitos da Carta de Intenções dos Blogueiros de Cerveja da qual sou signatário e um dos idealizadores. Desafio a qualquer um que prove que algum dia eu agi da forma que fui acusado. Inclusive, alguns donos de cervejarias novas que curtiram e compartilharam a postagem ofensiva, foram contatados por mim alguns meses atrás, pois era admirador do seu trabalho e queria colocar o blog à disposição deles para divulgação. Sabedores do teor das nossas conversas e homens honrados que são, teriam eles a coragem de afirmar que em algum momento eu cobrei alguma coisa – ou um gole das suas cervejas que fosse – para fazer isso? A postagem também foi comentada e curtida pela sócia de uma distribuidora de cerveja, uma das empresas que sempre indico quando alguém vem me consultar. Por isso, nunca recebi uma tampinha de garrafa sequer de comissão, e fiz apenas por julgar o trabalho deles como sério. Convenhamos, para um “parasita” e “jabazeiro”, estou fazendo meu trabalho muito mal, não acham?

A tendência a criticar faz parte da minha natureza. Sempre fui uma pessoa politizada e acho que a crítica sempre tem um papel de apontar erros que podem ser consertados. Por outro lado, faço questão de exaltar acertos, conquistas e coisas boas que vejo no meio cervejeiro – o que faço com maior frequência, inclusive. O debate está no sangue italiano da minha descendência, mas também a predisposição em não misturar alhos com bugalhos. Como falei no texto que deflagrou a polêmica, eu não sou o dono da verdade e estou aberto à contra-argumentações, desde que não sejam ofensivas. E mais: estou aberto a debater qualquer assunto pessoalmente, para aparar qualquer aresta que o meio virtual possa criar. Respeito às opiniões contrárias é algo que faço por convicção e me policio pessoalmente para não deixar de fazê-lo.

Aos homebrewers que se se sentiram ofendidos com a minha coluna, deixo meu pedido de desculpas. Não foi a minha intenção – e fui infeliz em usar as palavras “imensa maioria” – mas como coloquei no texto, não havia espaço para debater mais sobre o assunto. O que eu quis dizer é que, pela minha experiência pessoal, a maioria dos que eu conheço realmente não tem referência para saber se a cerveja que faz é boa ou ruim. No entanto, também conheço muitos cervejeiros caseiros que produzem maravilhas e que entendem muito mais de cerveja que eu e que muita gente por aí, muitos deles, inclusive, transcendendo as panelas e inaugurando suas próprias cervejarias, com muito sucesso e qualidade. A minha intenção ao dizer isso – e agora fora do contexto da coluna – foi incentivar os inexperientes a conhecerem mais sobre o estilo que se propôem a fazer, experimentando cervejas-modelo e comparando com suas produções. Já vi, por exemplo, gente fazendo Black IPA sem nem ter provado uma sequer na vida (isso dito pra mim pelo próprio cervejeiro quando questionado). Já vi homebrewer discutir comigo cheio de razão que o lúpulo Sorachi Ace era impossível de conseguir pois era de propriedade e produção exclusiva da Brooklyn Brewery (!?!??!?). Já ouvi falar de cervejeiro caseiro que ficou ofendido quando disseram pra ele que a witbier dele não poderia ter coloração âmbar. Exemplos ruins existem em todas as atividades e foi pra esses que o comentário foi direcionado. Aos que fazem bem seu papel, de produzir e de estudar cerveja, fica a minha completa e irrestrita admiração e respeito.

Às cervejarias brasileiras que se sentiram ofendidas ao ver a minha predileção pelas importadas, que continuem com o ótimo trabalho feito até agora. Ainda existe uma longa estrada a percorrer e torço para que as coisas melhorem muito, mas reitero a minha opinião. Apesar dos perrengues que as cervejas importadas sofrem ao vir pra cá, na média – e na minha opinião – elas ainda são melhores que as nacionais, salvo algumas grandes exceções, que faço questão de exaltar a cada oportunidade que tenho. Se acharem que dizer isso é contraproducente para o movimento cervejeiro nacional, paciência. Que continuem tapando o sol com a peneira e vivendo de tapinhas nas costas.

Aos defensores do “beba menos, beba melhor”, o meu respeito aos que seguem pessoalmente a pregação feita. Aos outros, o “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” é apenas hipocrisia. Não venham bater no peito e defender o lema, se não conseguem nem manter a dignidade ao se embriagar em público, como já vi alguns fazerem.

Sobre o que falei de as grandes cervejarias fabricarem boas cervejas para concorrerem com as artesanais, me respondam: vocês, como consumidores, também não acham isso bom? Já imaginaram um mundo de cervejas boas disponíveis em todos os lugares e a preços competitivos? Cervejas sem adjuntos indecentes, de ótima qualidade, ajudando a educar o público em geral e desenvolvendo o paladar da população? Me parece um bom cenário. De um modo geral, acredito que isso seria bom para todo mundo. A controladora da AmBev é belga, a Heineken é holandesa, e esses países são exemplos de produção de cerveja boa. Ficar com receio dessa possibilidade é apenas protecionismo e falta de confiança no próprio produto e no público consumidor.

Finalizando, gostaria de afirmar que continuarei dando a minha opinião e fazendo o que me proponho a fazer nesses últimos anos, que é falar o que penso, doa a quem doer. Os amigos podem não concordar, mas que não deixemos de manter a boa convivência e a amizade. Já os desafetos podem fazer a campanha que quiserem, pois vou continuar incomodando. Não posso ser infiel à minha história, nem à minha essência. O Bebendo Bem vai continuar sendo um espaço democrático, aberto para o debate em alto nível e receptivo à qualquer opinião, contrária ou não.

Deixo com vocês o e-mail que recebi do Presidente da Acerva Paulista, João Ricardo Zugliani, que é o exemplo de como discordar sem perder a classe. Obrigado, João! No meio da saraivada de ofensas, seu e-mail foi um alento e uma fonte de informação que irei seguir, certamente.

“Olá Fabian, tudo bem?

Meu nome é João Ricardo e sou o presidente da Acerva Paulista. Estou tomando a liberdade para debater com você a respeito da sua coluna na última edição da revista da HNB.

Todos têm direito a emitir sua opinião, mas devo discordar desse ponto de vista. Na realidade o erro da frase está na generalização e o uso equivocado da palavra maioria. Talvez o correto seria a imensa minoria. Sim, Fabian, eu conheço alguns cervejeiros caseiros “bichos do mato”, que não estudam, não consomem cervejas artesanais, não interagem com outros cervejeiros caseiros e ou associações.

Porém, a grande maioria dos homebrewers possui o hábito de degustar e descobrir cervejas pelo país e pelo mundo afora. Também trocam experiências, seja por fóruns, listas de e-mails, encontros ou brassagens promovidos pelas Acervas. E ainda, acredito que os cervejeiros caseiros têm uma parcela significativa de responsabilidade no aumento de números de festivais que vem ocorrendo no Brasil nesses últimos anos. Isso é fato! É só observar que uma parte dos frequentadores desses festivais são produtores de cervejas caseiras, ou então, consumidores dessas bebidas. Ou seja, sinal que estamos sempre em contato com o mundo cervejeiro fora das panelas. Outra evidência é o depoimento de jurados participantes dos concursos de cerveja caseiras, afirmando que a qualidade das amostras inscritas vem melhorando a cada ano.

Em um dos capítulos dos cursos básicos de fabricação de cervejas caseiras, que a Acerva Paulista tem promovido, é ressaltada a importância do cervejeiro caseiro de estudar, degustar e aprender sobre um estilo de cerveja antes de produzi-lo para conseguir elaborar uma receita de sucesso.

E falando em Acerva Paulista, um dos focos de atuação da atual diretoria é o desenvolvimento do hobby pelos associados. Esse ano, temos planejados cursos com enfoque mais técnico como off-flavors e fermentação. A previsão é de terminar o ano com outros assuntos, como tratamento de água, entre outros.

Enfim, lhe por trazer essa discussão à tona e gostaria de dizer nossa resposta está nas panelas.

Desde já o convido a participar de algum evento promovido pela Acerva Paulista para que você possa conhecer melhor o mundo das cervejas caseiras.

Abraços

João Ricardo Zugliani
Presidente da Acerva Paulista.”

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