#cervejadeverdade: um sucesso polêmico

Quem acompanha o Bebendo Bem aqui e no twitter deve estar careca de saber o que foi a campanha #cervejadeverdade, não é mesmo? Por isso, me furto de ter que reexplicar tudo de novo (afinal, é pra isso que serve o Google). Em resumo, foi uma ação de marketing viral de iniciativa dos Blogueiros Brasileiros de Cerveja que chamou a atenção do público comum para a ideia de que existem cervejas diferentes das que normalmente conhecemos. A hashtag chegou aos trending topics e gerou uma propaganda gratuita absurda para todo o setor das cervejas ditas “especiais” (as aspas serão explicadas posteriormente). O sucesso da hashtag foi tanto que ela é usada até hoje, quase dois meses depois.

No entanto, hoje pela manhã em seu twitter, o cervejeiro da Colorado, João Becker, questionou o termo usado. Segundo ele, “cervejadeverdade” seria um termo “arrogante”. Sua opinião, como acontece normalmente no twitter, foi apoiada por alguns e rechaçada por outros. A discussão rendeu muito e contou com a participação de várias figuras conhecidas do meio cervejeiro e até enveredou para outros lados.

Então, como eu sou o editor, ombudsman e censor do Bebendo Bem, uso o espaço que eu tenho para emitir a MINHA opinião sobre o assunto.

Sejamos francos: existem cervejas boas e cervejas ruins; existem cervejas feitas pelo departamento de marketing e cervejas feitas com a alma do cervejeiro; existem cervejas cujos ingredientes são de baixa qualidade e cervejas que tem a preocupação com a qualidade dos insumos usados. Em todas essas diferenciações, mesmo sem citar nenhuma marca específica, é fácil imaginar de quem estamos falando, não é mesmo? Então por que não é válido fazer uma diferenciação entre essas cervejas?

Nos Estados Unidos, o termo craft beer é largamente usado e aceito, assim como na Inglaterra, se usa real ale. Aqui no Brasil, num momento em que se tenta de todas as formas consolidar uma cultura cervejeira, há que se achar um termo que diferencie as cervejas comuns, comerciais, “de massa”, das cervejas especiais – e aqui eu tiro as aspas, por achar que esse é o termo adequado para essa diferenciação. OK, concordo que essa palavra possa parecer arrogante, se for usada para diferenciar a cerveja apenas pelo preço ou pelo status. Contudo, se o seu uso for para diferenciar as cervejas pela qualidade, considero especiais um termo mais que pertinente.

Há quem defenda o uso de “artesanal” para diferenciar as cervejas com qualidade. Não vejo problema. Só acho que ele é mais restritivo que especiais. Ora, existem ótimas cervejas feitas pelas grandes cervejarias que, pelo seu processo de fabricação em grande escala, não podem ser consideradas artesanais. É aí que o termo especiais se mostra mais adequado.

“Por que toda essa discussão? Cerveja é cerveja, não é mesmo?”

Não. Não é mesmo. Quem já começou a trilhar o caminho das cervejas especiais sabe que é um caminho sem volta. Particularmente, eu adoraria que todos os meus amigos “brahmeiros” (pra usar o termo da Tatiana Gomes) trilhassem esse mesmo caminho sem volta. Para isso, deve haver sim uma diferenciação entre as cervejas comuns e as cervejas com qualidade, diversidade e personalidade. Especial, artesanal, não importa. O que importa é chamar a atenção do afegão médio para o fato de que ele vive, citando o pessoal da Cerveja Grimor, numa “Matrix cervejeira”. Ou seja, existe um mundo gigantesco de estilos, cultura e qualidade de cervejas que deve ser explorado. E por achar que a cerveja NUNCA deva ser algo elitista, quanto mais pessoas fizerem isso, melhor.

Nesse sentido e voltando ao #cervejadeverdade, eu até posso concordar que, para alguns, dizer que a cerveja que tomamos é “de verdade”, enquanto as outras, de baixa qualidade, são “de mentira”, soa um pouco arrogante. No entanto, NUNCA houve antes uma exposição tão grande das cervejarias, dos bares, dos blogs, enfim, de todo o cenário cervejeiro sério do Brasil. Abrimos os olhos de muita gente que nunca nem imaginava que existia algo além das Brahmas. Mesmo que se questione o termo em si, não se pode negar o sucesso de mídia GRATUITA que todos os envolvidos tiveram. Essa publicidade e a beerevangelização (outro termo polêmico) de alguns valeram muito a pena.

A verdade é que pouco importa o nome, seja “especial”, “artesanal”, “de verdade”, “cor de rosa”… Independente do nome dado, nunca deve ser usado num contexto de arrogância ou elitismo. O que todos desejam, acredito eu, é que mais e mais pessoas conheçam e se apaixonem pelas boas cervejas. Para isso, pouco importa o nome que chamamos essas cervejas, mas sim, a difusão da cultura cervejeira.

Enfim, convido o leitor a continuar o debate nos comentários. Ao menos tem bem mais que 140 caracteres de espaço… :D

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

5 Responses to “#cervejadeverdade: um sucesso polêmico”

  • Gostei do termo “afegão médio”pra se referir as pessoas que vivem na Matrix!
    Quanto ao termo especial acho que é o mais justo em relação as cervejas, mas eu sou a favor do termo cerveja de verdade. É como eu falei no twitter, você quer comparar um Fiat Uno a uma Ferrari e não poder diferenciar, senão o dono do Uno pode se sentir ofendido.

  • Fabian, talvez o termo artesanal sirva também para aquelas maiores, mas que priorizem a atuação do mestre cervejeiro ao invés da pesquisa de mercado e da abrangência comercial.

    Tenho um vídeo lá no Gole que aborda rapidamente (pois é apenas um teaser) o tema. Está com o título “o que é cerveja artesanal”.

    O que acha?

  • Fabian, muito bem concluído.

    Como disse o João Becker no twitter logo depois, “Fazemos e bebemos cerveja. Pena que temos que colocar adjetivos para separá-la das outras.”
    Pois é, inevitavelmente temos que colocar adjetivos, temos que definir o produto, porque faz parte do trabalho de divulgação. Não é o ideal, procuro evitar fazer isso, mas de vez em quando acabo fazendo.

    O que diferencia as cervejas é a cultura que as envolve, o contexto, o lugar em que foi feita. A qualidade dos materiais usados, a experiência e a alma que o cervejeiro colocou naquela cerveja.

    Isso é o que torna uma cerveja melhor que a outra, esses são os valores e a cultura que temos que tentar transmitir pras pessoas, e não ficar tentando transmitir uma imagem de produto de uma certa elite, ou de produto de certo grupo, ou de um certo padrão de vida.

    Agora, é importante notar a predisposição dessa cerveja a ser recebida primeiro por uma certa parte do mercado consumidor que tenha uma base cultural maior. Rico ou pobre, tem que ter um pouco de cultura, para poder discernir. É esse consumidor que vai passar pra frente essa cultura.

  • Minha opinião como “aprendiz de marketeira” é: A campanha foi um sucesso justamente porque foi agressiva. O Brasil criou essa cultura do “politicamente correto” e virou tendência criticar tudo aquilo que não é imparcial. Lá fora as rixas entre marcas são frequentes e não se faz tanto escândalo por conta da agressividade quanto aqui. Como foi dito, é preciso ter cultura para entender isso tudo ao invez de se sentir ofendido.
    Como apaixonada por cervejas especiais (de fato é um caminho sem volta) acho que todos têm o direito de falar como querem do alvo de sua paixão, pois paixão é isso, é perder as travas e se jogar de cabeça. Os cervejeiros devem ter total liberdade para defenderem suas crias.
    A discussão cabe aos jornalistas e profissionais do ramo. Eles precisam utilizar termos mais amenos até por conta da credibilidade que isso traz, principalmente se o objetivo é difundir.

  • Antonio says:

    É, Fabian…A discussão vai ser eterna!
    Desde o BBC, onde iniciamos a discussão sobre os melhores termos, já havia muito conflito e opiniões divergentes. Não é agora, dando a cara pra bater publicamente no Twitter, que algum termo terá 100% de aprovação.

    As três opções aqui propostas tem seus prós e contras. Acredito muito no “cerveja de verdade” para uma hashtag e na divulgação, mas pra termo técnico de diferenciação ele acaba mesmo sendo muito arrogante.

    Já o “cervejas especiais” é mais brando. Apesar de um pouco esnobe, carrega essa bagagem cultural de uma cerveja bem elaborada, bem feita e desgustada com a consciência que ela merece.

    Aí chegamos ao meu favorito: cerveja artesanal. Como já foi dito por muitos, acredito que artesanal se refere mais ao cuidado de quem a faz do que à escala de produção. Assim podemos falar de cerveja sem parecer esnobes, pois uma artesanal pode custar menos de 5 reais, e também incluímos as grandes produções. O que não encaixar aqui a gente chama de premium e pronto! rs

    Conflitos e interpretações errôneas sempre vão existir, então o jeito vai ser a gente encontrar um termo que desagrade menos! rs

    Abraço

Leave a Reply

Publicidade
Arquivos